sábado, 15 de agosto de 2009

Mora em mim


Mora em mim. Sem teto nem parede e com janela. Mora em mim. Com a porta aberta. Mora, traz suas coisas, todas. Vão caber. Não será em vão. Vamos acabar com esse vão. Mora dentro de mim pelas pernas pelos braços e cresce nos meus cabelos e unhas. Mora mas sai pra passear.

Traz as ruas por onde andar, aquelas nuvens, seus reflexos nos vidros. Traz as músicas das coisas, toca elas aqui. Pra eu vibrar. Não me conta nada, mas traz as imagens, todas elas. Todos os sons e os sinais, os pontos de luz. Mora em mim que te dou um beijo, um bocejo, um meio, um feito, um eu.

E quando eu não estiver é porque volto já. Venho trazendo cheiros, tipos de olhar, um ou outro jeito de falar, um punhado de gestos, uns restos. Talvez um gato.

Porque gosto da imagem do cheiro nas ruas com gatos e seus gestos que se confundem com os pontos de luz que vibram com a música em baixo das nuvens que refletem nos vidros como sinais.

Porque gosto também do seu jeito de falar como se fosse um gato que caiu das nuvens que dão sinais fazendo a gente vibrar como se tocasse música nos pontos de luz que refletem nos vidros.

E de tudo mais que você trouxer.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Corta-azar

Fique de cabeça pra baixo e deixe que o sangue vá todo para a cabeça. Permanecer nessa posição até que os fios de cabelo cresçam 0,002 milímetros. Então você pode se levantar. Passe o dia inteiro observando insetos e se alimentando apenas de vaga-lumes. À noite, pra sentir uma breve alegria, durma em uma cama um pouco menor que o seu corpo para que, ao deitar de bruços, os pés fiquem para fora e possam manter a forma anatômica natural, formando um ângulo de 45 graus com as pernas. Que maravilha. Ao acordar no dia seguinte prepare um par de asas usando penas brancas que serão coladas em uma armação de arame. Prenda duas tiras de couro nas asas de arame, uma em cada lado, formando duas alças. Vista as asas como quem veste uma mochila. Dê um passeio pela vizinhança vestindo somente essas asas. Respire no mesmo ritmo em que caminha. Talvez você tenha vontade de pular corda. Se isso acontecer você deve ir até uma criança e pedir que lhe empreste uma, mas nunca, jamais, deverá comprar uma corda. Construa um relicário, o menor possível, e guarde nele os seus segredos e toda espécie de sonho.

O nascimento do amor


Era um filme de dor. Era um belo filme. Era um homem gordo, feio, sujo, um pouco sujo, que amava uma mulher bonita. Era um homem gordo e feio, que tinha uma mulher, um filho, um bebê, e amava outra mulher. E amava todas as outras coisas. Ele tinha mulher, filhos e culpa. Tinha culpa e um amigo que amava uma mulher que não amava ele. O amigo tinha um amor que doía. O homem e o amigo tinham crianças na alma. Tinham criança, tinham culpa e tinham medo. Tinham um ao outro também. O mais gordo tinha criança nos olhos. Tinha a serenidade de quem que se acostuma com a dor. Tinha o peso da vida nos olhos. Mas tinha sorriso. O amigo não tinha sorriso e o peso da vida era tão grande que tinha os olhos apontando pra baixo nas extremidades. Tinha vontades ao mesmo tempo.
O tempo demora demais pra passar.
E ainda assim não é tempo suficiente.